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Plantando arroz no Japão (2)

A palavra tanada pode ser traduzida literalmente como “prateleira”, mas também se refere aos arrozais plantados em terraços na encosta do morro

Chegou a hora da colheita do arroz aqui na minha região, no sul da província de Chiba.

As folhas e os pedúnculos maduros deixam os tabuleiros douradinhos. Um grande espetáculo que a cada ano fico esperando como um ritual de beleza sazonal que já não pode faltar na minha vida. Também pudera, essa paisagem faz parte da minha vizinhança.

Para mim, esse é que é o “ouro”.

Arroz maduro no ponto de colher

No sistema tradicional, depois de cortada, a planta do arroz é colocada em varais para os grãos secarem

Depois de atravessar as incertezas e riscos que a natureza sempre impõem, agora é o momento mágico em que o sorriso largo se estampa na face dos abnegados agricultores.

A planta do arroz é cortada e amarrada em maços para ser colocada no varal

Que bela - e dura - missão, a de cultivar em locais tão íngremes e nos conceder essa comovente paisagem. Comovente porque há centenas de anos, numa época que não existiam máquinas, os ancestrais esculpiram os tabuleiros na encosta. De geração a geração, mesmo às duras penas, as áreas têm sido mantidas e proporcionando a dádiva do alimento.

A luz do fim da tarde deixa o tanada ainda mais bonito


Esse tipo de plantação em terraços, chamado de tanada, está correndo o risco de desaparecer em muitos locais do Japão por causa do êxodo rural e do envelhecimento da população agrícola.

Para que isso não aconteça, surgiu um movimento de preservação de tanada envolvendo agricultores e pessoas da área urbana. Na próxima postagem desta série, vou contar em detalhes sobre essa iniciativa. Também tô dentro!
Tema > Agricultura | 11:52 | comentários (1) | -

Plantando arroz no Japão (1)

Aqui na minha região a maioria dos agricultores planta o arroz entre o fim de abril e meados de maio. Como eu e a Satomi estávamos no Brasil nesse período, acabamos atrasando em um mês o plantio.

Mas não é a primeira vez que isso acontece. Este é o sétimo ano consecutivo que cultivamos arroz. Com atrasos e outras dificuldades – não usamos agrotóxico e nem adubo químico - sempre acabou dando certo e tendo boa colheita. Resistente e produtiva, a planta do arroz é mesmo uma grande dádiva.

Na série “Plantando arroz no Japão” vou contar mais sobre esse cultivo, que também está dentro de um projeto nosso de recuperação e preservação de tanada (arrozais em terraços nas encostas dos morros). Acompanhe!

Plantando Arroz no Japão
Eu uso uma antiga plantadeira de mudas que ganhei de
um agricultor vizinho que já se aposentou.

Plantando Arroz no Japão
As mudas vão sendo fincadas na lama em fila dupla.
Nos pontos que ficam falhos, a Satomi replanta manualmente.

Plantando Arroz no Japão

Plantando Arroz no Japão
Nos primeiros anos, plantamos as mudas manualmente levando dias. Agora, com a máquina, o trabalho avança rápido.

Plantando Arroz no Japão
Dentro do nosso arrozal sempre tem uma grande diversidade de vida porque não usamos agrotóxicos.Na foto, a perereca ainda está com o rabinho de girino.

Plantando Arroz no Japão
Céu azul, começo do verão.

Fotos: Satomi Shimogo©
Tema > Agricultura | 07:05 | comentários (0) | -

MORO NO MATÃO ( 3 )

O Curtindo o Japão estava meio devagar com as postagens por causa que eu passei algumas semanas no Brasil, trabalhando em projetos muuuuuito legais que eu espero ter tempo, energia, concentração, inspiração e transpiração para levá-los adiante e contribuir para um maior intercâmbio entre os dois países.

Fazia um bom tempo que não voltava para a terrinha brasillis e fiquei super feliz em ver a economia “bombando” e o povo otimista e cheio de vigor - apesar da dengue, da gripe suína e dos noticiários da tevê pingando sangue.

Eu teria muita coisa para comentar sobre o que vi no querido Brasil, mas, como este site é sobre o querido Japão, vou me limitar a mostrar para vocês um dos livros que eu trouxe, porque ele tem tudo a ver com a filosofia da série “MORO NO MATÃO”.

Livro Memorias Inventadas de Manoel de Barros.JPG

O autor é o poeta Manoel de Barros, que eu leio e releio desde 1989 e com quem me identifico profundamente.

Este é o trecho de uma poesia do livro cujo título é "Sobre sucatas":

...Não vi nenhuma coisa mais bonita na cidade do que um passarinho. Vi que tudo que o homem fabrica vira sucata: bicicleta, avião, automóvel. Só o que não vira sucata é ave, árvore, rã, pedra. Até nave espacial vira sucata. Agora eu penso uma garça branca de brejo ser mais linda que uma nave espacial. Peço desculpas por cometer estas verdades.
Tema > Série MORO NO MATÃO | 09:41 | comentários (0) | -

MORO NO MATÃO ( 2 )

Certa vez, a Satomi conversava ao telefone e a pessoa do outro lado, em Tokyo, ficou espantada com um barulho que estava escutando. Ela achou que tinha algum problema ou interferência na ligação, pois o chiado era muito alto.

Não, não era interferência nenhuma. Era a sinfonia de sapos em volta de casa, que se inicia pianinho no começo da primavera e vai num crescendo, aumentando de volume e ritmo, com o avanço da estação.

Os sapos e pererecas também anunciam a chegada da primavera com uma sinfonia de coaxos

Ontem à noite, eu percebi que os sapos e pererecas já começaram os ensaios e exercícios de aquecimento vocal. Logo, logo vamos ter a abertura da temporada de grandes espetáculos.

Obs.: encontrei na Wikipédia uma frase esclarecedora sobre esses bichinhos:

Importante lembrar que as pererecas, assim como sapos e rãs, estão sendo banidos devido alterações e destruição de seu habitat e, apesar de causarem certo nojo e pavor, são indicadores de um meio ambiente saudável.


É isso aí!
Tema > Série MORO NO MATÃO | 06:19 | comentários (0) | -

MORO NO MATÃO (1)

Estou inaugurando uma nova série. Quero mostrar para vocês uma face do Japão rural através do lugar que nós - eu e a Satomi - escolhemos para morar.

Aqui, tenho a felicidade de poder me conectar com outras formas de existência e de existir -impossível nos grandes centros urbanos -, e de exercitar o meu corpo analógico plantando e colhendo alimentos.

Arrozal na encosta de um morro

Acima, um tanbo (arrozal) na encosta do morro. Nós o arrendamos e plantamos arroz nesse lugar por dois anos. A foto é de julho de 2008, eu estava concertando a parede da margem com uma enxada para a água não vazar.

Veja mais sobre o matão
Tema > Série MORO NO MATÃO | 15:08 | comentários (0) | -

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