Série sobre a região de Jōban (Ibaraki e Fukushima)
Ankō, um peixe medonho, mas delicioso
04/02/2010
O mar em frente ao porto estava escuro e a paisagem meio embaçada por uma fina neblina. Muitas gaivotas pousadas no cais. Eu ali, sorrateiro como um gato, tentado me aproximar delas para conseguir um bom ângulo. De repente, as aves começaram a grasnar alto e debandaram. Perdi a foto. Mas a culpa não foi minha. Olhei na direção para onde voaram e vi um barco entrando na baiazinha. Dada a festa das gaivotas, só podia ser um pesqueiro.
Os frutos do mar que chegam no porto de Hirakata, na cidade de Kitaibaraki (Ibaraki), gozam de bom prestígio. O mar da região é rico em nutrientes por causa do shiome no umi, o local onde ocorre o encontro de correntes marinhas. Há fartura e diversidade de pescados. Eles ganham boa cotação no mercado das grandes capitais por causa do sabor diferenciado.
Os barcos voltam depois de passar noite e madrugada no mar. Descarregam e logo acontece o leilão no galpão em frente ao cais. Antes do pregão, conheci um comprador que abastece restaurantes. Perguntei porque esses frutos do mar tinham boa fama. Ele foi até um tanque com lulas. Pegou uma bitela. Arrancou a cabeça, lavou e me deu: - Kue...umaizoo (Coma!...É gostoso!). Não precisou nem de sal. Ainda estava com sabor de oceano e uma textura crocantezinha de tão fresca.
Atração gastronômica
O peixe ankō (lophiidae) é um dos destaques desse porto pesqueiro no inverno. Mas o bichinho é feio. Medonho mesmo. Vendo ele inteiro, é impossível acreditar que se trata de algo comestível. Além da aparência grotesca e diabólica, é mole e gosmento. No fundo do mar, o seu habitat, ele mimetiza uma pedra com algas.
Yuji Shinohara, o dono da pousada Yamani Gōsaku, compra nesse porto os frutos do mar que serve aos hospedes. Ele arrematou um ankō de mais de dez quilos, o maior no leilão desse dia. A minha janta.
O senhor Shinohara me explicou que, apesar da aparência feia do ankō, dele quase tudo se aproveita, até a pele, nadadeiras e guelras. A parte mais valiosa é o fígado, comparado ao foie gras.O nabe (ensopado) de ankō é atração turística da região no inverno. As pousadas próximas ao porto de Hirakata preparam uma receita típica local, chamada dobu-jiru. Antigamente, era a comida feita em cima do barco pelos pescadores. O ankō não tinha valor no mercado e, quando vinha na rede, devolvia-se ao mar ou ia para a panela. Depois, passou-se a retirar só o fígado e, atualmente, apenas as mandíbulas e o intestino não são consumidos.
Onsen e dobu-jiruAs pousadas próximas ao porto também contam com banho de água termal natural e, a quinze minutos a pé, fica a praia Nakoso.
O jantar da Yamani Gōsaku é farto e variado e a estrela principal no inverno é o dobu-jiru. O sabor desse cozido é exótico por causa do tempero de miso (pasta de soja fermenta) e do próprio fígado derretido do ankō. Também não se coloca água como no nabe comum. O cozido fica denso, apenas com o líquido que se desprende da carne do peixe e das verduras.
Foi a primeira vez que comi ankō. A carne não é fibrosa e tem uma consistência gelatinosa. Lembra a de baiacu, sem o perigo de morrer envenenado.
Texto e fotos: Reginaldo Okada©
Coordenação e pesquisa: Satomi Shimogo
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Informações úteis
Pousada Yamani Gōsaku – Endereço: Kitaibaraki-shi, Hirakata-machi, 273. Tel.: (0293) 46-1178. Site: http://www5.ocn.ne.jp/~yamani/
Associação de turismo de Kitaibaraki –Site: http://www.kitaibarakishi-kankokyokai.gr.jp/
Como chegar
Para visitar o bairro de Hirakata, leva 5 min. de carro da estação Otsukō ou 10 min. da estação Nakoso, ambas da linha Jōban, da JR. A praia de Nakoso fica 10 min. de carro da estação Nakoso ou 15 min. a pé do porto de Hirakata.

















